Meus caros alunos,
Imaginai uma mesa. Para permanecer firme, ela precisa de quatro pés bem
assentados. Se um deles faltar, for mais curto ou estiver mal apoiado, a mesa se tornará
instável; e talvez isso nem seja percebido enquanto nada pesar sobre ela. É quando
colocamos algum peso sobre a mesa que descobrimos se sua estrutura é realmente sólida.
Assim também acontece com a vida. As dificuldades, as responsabilidades, as perdas, as
escolhas e as provações são o peso que, mais cedo ou mais tarde, será colocado sobre nós.
Não podemos impedir que esse peso venha, pois ele faz parte da própria condição
humana. Podemos, porém, preparar a mesa. Por isso, não espereis a dificuldade para
descobrir se estais preparados para enfrentá-la. A preparação acontece antes,
silenciosamente, durante os anos em que estudamos, praticamos, erramos, corrigimos,
escolhemos e formamos o nosso caráter. Uma boa educação não serve apenas para
responder às perguntas das provas ou para acumular informações que logo serão
esquecidas. Ela deve formar alguém capaz de sustentar o peso da própria vida. Pensai,
portanto, sobre que tipo de mesa estais construindo a vossa vida.
Há quatro coisas que deveis cultivar: uma para as mãos, uma para a língua, uma
para a ação e uma para a inteligência. A primeira é a arte mecânica: aprender a fazer,
construir, reparar, tocar, desenhar, cozinhar, cultivar, praticar um esporte ou desenvolver
qualquer outra habilidade que exija a participação concreta das mãos e do corpo. A
segunda é a linguagem: aprender a ler, escrever, falar, ouvir e compreender outras línguas,
pois é pela linguagem que entramos no mundo dos outros e tornamos inteligível aquilo
que pensamos. A terceira é a prática: aprender a escolher, agir, decidir e viver bem, pois
conhecer muitas coisas não significa necessariamente saber o que fazer com elas. A quarta
é a teoria: buscar compreender o que as coisas são, quais são suas causas, seus princípios
e seus fins. São quatro pés de uma mesma mesa. Não precisais aprender tudo, nem
transformar-vos em especialistas em todas as áreas do conhecimento. Precisais, porém,
escolher bem aquilo que decidirdes estudar e permanecer tempo suficiente diante daquilo
para que o estudo possa produzir fruto. Fazei. Dizei. Vivei. Contemplai. E não esqueçais:
os quatro pés não são quatro mesas diferentes. São uma só.
Não penseis que somente a cabeça aprende. A mão aprende, o olho aprende, o
ouvido aprende e o corpo aprende. Um músico não se torna músico apenas lendo sobre
música; um marceneiro não conhece verdadeiramente a madeira apenas porque sabe
defini-la; um atleta não aprende seu esporte apenas assistindo a vídeos. É preciso fazer. A
habilidade nasce da repetição. O primeiro movimento é difícil, desajeitado e exige toda a
nossa atenção; o centésimo já começa a tornar-se familiar, e aquilo que antes parecia
impossível passa, pouco a pouco, a fazer parte de nós. É assim que uma habilidade se
transforma em hábito e o hábito, com o tempo, em uma espécie de segunda natureza.
Escolhei, portanto, alguma coisa que possais fazer com as mãos ou com o corpo: um
instrumento, um esporte, um ofício, uma arte, uma atividade manual. E praticai. Não
procureis possuir dez habilidades superficiais quando poderíeis possuir uma ou duas
profundamente desenvolvidas. O talento pode abrir uma porta, mas é o hábito que constrói
a estrada. Aquilo que fazemos repetidamente, com paciência e atenção, acaba formando
não apenas a nossa habilidade, mas também uma parte de quem somos.
Depois de aprender a fazer, precisamos aprender a dizer. A linguagem é uma das
principais ferramentas da inteligência. Pela palavra ensinamos, perguntamos,
prometemos, explicamos, consolamos, persuadimos e também podemos ferir. Por isso,
lede. Lede literatura, poesia, história, filosofia e bons discursos. Aprendei gramática.
Escrevei. Aprendei outras línguas. Mas não procureis simplesmente falar bonito. Procurai
falar com verdade, clareza e precisão. Uma pessoa que conhece apenas as palavras “bom”
e “ruim” possui poucos instrumentos para compreender as diferenças que existem no
mundo. Quanto mais aprendemos a distinguir, mais precisamente conseguimos pensar, e
quanto mais precisamente pensamos, mais capazes nos tornamos de comunicar aquilo
que pensamos. Não tenhais, por isso, vergonha de errar, sobretudo quando estiverdes
aprendendo uma língua estrangeira. Uma língua só se torna familiar depois de muitas
tentativas, muitos erros, muitas correções e muita repetição. A palavra é uma ferramenta:
quanto melhor a ferramenta, mais precisamente podemos pensar, compreender e
comunicar.
Mas conhecer muitas coisas não significa necessariamente saber viver. Podemos
saber falar e não saber decidir; podemos saber construir uma casa e não saber construir
uma família; podemos conhecer a coragem e continuar sendo covardes. Por isso existe o
estudo da prática: aprender a escolher e agir bem. A vida exige decisões concretas, e essas
decisões produzem consequências. A história é uma grande escola para isso, porque nos
mostra homens e mulheres enfrentando circunstâncias diferentes, tomando decisões boas
ou ruins e suportando as consequências de suas escolhas. Muitas vezes, grandes
acontecimentos começaram com pequenas decisões que, no momento em que foram
tomadas, pareciam insignificantes. Estudai, portanto, a história. Observai os homens.
Aprendei com seus acertos e seus erros. A prudência não é medo. Ser prudente não
significa recusar todo risco ou permanecer sempre parado diante da dificuldade.
Prudência é saber quando avançar e quando recuar, quando falar e quando calar, quando
insistir e quando desistir; é aprender a reconhecer o momento adequado para cada ação.
Não basta conhecer o bem. É preciso escolhê-lo. E, depois de escolhê-lo, é preciso
praticá-lo até que a escolha correta deixe de ser uma exceção e se torne um hábito.
Há, porém, conhecimentos que buscamos porque são úteis e necessários para
alguma finalidade, e há conhecimentos que buscamos simplesmente porque é melhor
conhecer a verdade do que ignorá-la. É aqui que entra a teoria. A filosofia pergunta: “O
que é isto?”, “Por que existe?”, “Qual é sua causa?”, “Qual é seu fim?”. A matemática, as
ciências e a teologia também nos conduzem, cada uma a seu modo, à busca de uma
compreensão mais profunda da realidade. A técnica pergunta: “Como fazer?”. A prática
pergunta: “O que devo fazer?”. A teoria pergunta: “O que é?”. Precisamos das três
perguntas. Uma sociedade pode saber construir máquinas sem saber para que deve utilizálas; pode produzir riqueza sem saber o que é uma vida boa; pode transmitir milhões de
mensagens sem ter nada verdadeiro a dizer. Por isso, não estudamos apenas para ser úteis.
Estudamos também para ver melhor a realidade, para compreender o mundo em que
vivemos e para aprender a reconhecer aquilo que é verdadeiro, bom e belo.
Hugo de São Vítor ensinava duas coisas que todo estudante deveria guardar: não
ter nada como vil e não ter vergonha de aprender com ninguém. Guardai isso com
cuidado. Não rejeiteis uma verdade simplesmente porque não gostais de quem a disse.
Não importa se o autor pensa diferente de vós, torce para outro time, possui outra religião
ou defende ideias políticas contrárias às vossas. Se ele sabe alguma coisa que vós não
sabeis, aprendei aquilo que ele sabe. Isso não significa aceitar tudo sem crítica, abandonar
o próprio juízo ou considerar verdadeiro tudo aquilo que ouvimos. Significa possuir uma
inteligência suficientemente livre para separar a verdade da pessoa que a transmite. Uma
verdade continua sendo verdade mesmo quando é pronunciada por alguém de quem não
gostamos, assim como um erro continua sendo erro quando é dito por alguém que
admiramos.
Não transformeis, portanto, vossas simpatias e antipatias em porteiros da
inteligência. Quem só aprende com aqueles de quem gosta acaba aprendendo muito
menos do que poderia. Se permitirmos que nossas preferências decidam antecipadamente
quem pode nos ensinar, construiremos ao redor de nossa inteligência uma pequena prisão
feita de afinidades, preconceitos e certezas confortáveis. O estudante verdadeiramente
livre não pergunta primeiro se gosta de quem fala; pergunta se aquilo que foi dito é
verdadeiro. Não precisa abandonar suas convicções para ouvir o outro, nem precisa
concordar com uma pessoa inteira para aprender alguma coisa com ela. É possível
discordar profundamente de alguém e, ainda assim, reconhecer aquilo que essa pessoa
conhece melhor do que nós. A verdade não precisa primeiro conquistar nossa simpatia
para ser verdadeira.
É essa liberdade que desejo para vós. Quero que tenhais mãos capazes de fazer, uma
língua capaz de dizer, uma vida capaz de escolher e uma inteligência capaz de contemplar.
Quero que saibais trabalhar e pensar, falar e ouvir, agir e refletir. Quero que tenhais
conhecimento suficiente para não serdes facilmente enganados, prudência suficiente para
não confundirdes coragem com imprudência e humildade suficiente para reconhecer que
sempre haverá algo a aprender. Ao longo da vida, encontrareis dificuldades que não
escolhestes, responsabilidades que não esperáveis e pesos que não podíeis prever. Não
tereis controle sobre todos eles. Tereis, porém, algum controle sobre a mesa que estais
construindo agora.
Construí-a, portanto, com paciência. Fortalecei os quatro pés. Fazei aquilo que
escolhestes fazer até que vossas mãos aprendam. Lede e escrevei até que vossa língua se
torne instrumento preciso do pensamento. Estudai a história e exercitai a prudência até
que vossas escolhas se tornem melhores. Buscai a verdade até que vossa inteligência
aprenda a contemplar a realidade sem medo e sem preconceito. E, quando vier o peso
(porque ele virá), espero que a mesa permaneça firme.
Meus caros alunos, não sabeis ainda tudo aquilo que a vida vos pedirá. Mas podeis
começar, desde agora, a preparar-vos para responder. E talvez essa seja uma das maiores
finalidades da educação: não nos dizer exatamente qual peso encontraremos, mas formar
em nós a força, a habilidade, a prudência e a inteligência necessárias para sustentá-lo.
Com estima e confiança,
Magister Clisthenes
Porto Alegre, 24 de Agosto de 2026.

