Os apetites que temos vêm de um vazio. Só temos apetite por comida – isto é, fome – por termos um estômago que fica periodicamente vazio para encher.
Pode-se dizer, por analogia, que a inteligência é outro estômago vazio que precisa ser alimentado. Quando vazia, a inteligência também tem fome. Fome da verdade sobre a vida, sobre as coisas que nos cercam – e fome da verdade sobre Deus, que é a própria Verdade.
A inteligência, ademais, emite sinais de que está precisando ser alimentada; ela também se ressente por passar fome; mas esses sinais são bem mais sutis que os estomacais, o que a faz, por vezes, passar anos sem ser atendida de modo satisfatório. Às vezes, a inteligência passa anos só se alimentado de ideias de consumo rápido e informações ultraprocessadas.
Disto vem uma grande pergunta: por que é que, na prática, poucos movem meios eficazes para saciar o apetite da inteligência?
Pode-se alegar que a barriga vazia impede ou, pelo menos, dificulta o esforço mental requerido para a busca da verdade. Que a primeira fome é mais urgente que a segunda.
Agora, a verdade é que nunca antes na história deste país e do mundo tantas barrigas estiveram cheias; às vezes tão cheias que o pensamento fica prejudicado: mas mesmo com a dor da fome devidamente resolvida, o esforço mental, para boa parte das pessoas, permanece uma possibilidade jamais realizada.
Alguns podem alegar que seu poder racional não foi talhado pela natureza para as árduas campanhas em busca da tão preciosa verdade. Este é um impeditivo real para muitos, muitos não foram feitos, parece, para as grandes caçadas da inteligência; e estes são, segundo alguns, a esmagadora maioria.
Longe estão, porém, de ser todos. Muitos demonstram habilidades intelectuais consideráveis. Aplicam-nas de bom grado na profissão, jogos e passatempos; recusam, contudo, seu emprego em investigações intelectuais. Estes com frequência negligenciam e desprezam até o esforço moral para agir com retidão e o próprio culto a Deus.
Como explicar essas atitudes? Se as barrigas estão cheias; se o paladar foi bem tratado; se o departamento do talento está provido; por que ainda a inteligência está na indigência?
A verdade é que tudo está interligado. O esforço intelectual, o esforço moral e o culto divino. De modo que, se viramos a cara a uma só dessas áreas, acabaremos estagnados nas demais. Mas não é só isso que explica o descaso em que vivem muitas inteligências capazes.
A segunda verdade é que existe um terceiro tipo de fome, a qual, tendo sido inflada e posta no altar máximo das gentes, tem drenado para si toda a energia que poderia ser empregada em assuntos de maior monta para o homem.
Podemos denominar esse apetite exaltado de carência afetiva, ou, de modo mais poético, de culto do próprio umbigo.
Esse fenômeno tem raízes em outro vazio em nós. Existe na alma um buraco que tem fome de afeto, de atenção, de elogios, de prazeres da carne. Esse estômago da alma deve ser também alimentado (com medida). O problema, como dito, é que esse vazio específico foi posto num altar profano e transformado em ídolo. Com isso, desejos, carências e traumas se tornaram o vértice invertido da vida. O homem que compra tal cosmovisão de culto à carência afetiva se torna uma espécie muito irritadinha e exigente de divindade, para quem todas preocupações e dores objetivas do mundo acabam tendo de pagar pedágio à sua sacrossanta subjetividade.
Essas divindades não sofrem de pendor intelectual; elas fogem, na verdade, de qualquer maior esforço: mas fogem em especial do esforço intelectual e moral, pois pressentem que ali, em algum corredor insuspeito da vida de estudos, podem encontrar-se cara a cara com aquilo que mais temem neste mundo: a verdade sobre si mesmos, nuazinha como no dia do seu nascimento. Daí todo o desprezo secreto que nutrem pelas inteligências robustas e ativas.
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Bem, isso tudo talvez não seja novidade para alguns leitores. Todavia, entre perceber o problema e vencê-lo se interpõe um perigoso abismo, que não muitos têm tido a coragem de cruzar.
Como podemos saber disso?
Por diversos sinais diferentes. O primeiro é que conhecemos muitas pessoas que diziam querer iniciar os estudos. A maioria não os iniciou de fato. E os que iniciaram pararam ou então avançam de modo muito lento e timorato; estes pareciam ter muita força no início, mas algo a foi consumindo pouco a pouco.
Os que não iniciam olham para dentro e não sentem a força necessária para o primeiro e mais decisivo passo. São aqueles que se sentam à entrada do caminho e ficam contemplando com anelo uma vida inteira. Os demais até entram e começam a caminhar; mas, por viverem olhando para trás, para alguma coisa que ficou mal resolvida no passado, fazem progressos tão pífios que, no cômputo geral, terminam anulados pelo tempo e o esquecimento.
Mas esses problemas têm algo a ver com aquele já referido culto do umbigo? Tudo e mais um pouco.
Todas as tradições falam de um lugar na terra que é o umbigo ou centro do mundo. Para os gregos, era Delfos tal lugar. Para os judeus, Jerusalém. Para os cristãos, Jerusalém e Roma dividem a honra. Nenhuma tradição digna do nome, entretanto, pôs o umbigo do mundo no umbigo de todo mundo. Não é possível haver tantos umbigos para onde os olhares devam convergir, à espera das águas da doutrina e da bênção. Na verdade, o umbigo do mundo existe justamente para que o homem se desligue do seu e vá pensar e fazer outras coisas, fora de si, vivendo mais na ordem objetiva que na meramente subjetiva.
Por outro lado, a cultura atual toda está aparelhada para dar às pessoas a impressão de que seus sentimentos e desejos são o centro em torno do qual tudo gira; são o eixo do mundo. Ora, quando o homem se dedica inteiramente ao culto de si mesmo, ele não tem tempo nem menos ainda energia para dedicar às coisas lá fora. Mas sua inteligência e sua vontade não existem para que ele crie o culto de si; existem para que investigue o mundo, cultue o Criador, ordene sua vida, ajude a quem puder e se dedique à causa da justiça e do bem. Nada disso diz respeito a paparicar e ostentar online os próprios sentimentos.
E a notícia ainda pior é que é muito difícil ao homem nutrido na cultura do umbigo cortar o cordão que o alimenta. Não é, em todo caso, impossível. Como fazer? Deve-se começar por dar mais e mais atenção àquela fome da inteligência, com providências bem ativas para saciá-la.
O problema é que nessa nova dinâmica se escondem outros desafios. Pois nutrir significa começar a desenvolver a inteligência e a vontade; o que implica dedicar, ainda por algum tempo, perigosa atenção a si mesmo. E é justamente aí que a vaidade de brilhar e ser paparicado por feitos intelectuais surge e se imiscui nos estudos, que deveriam estar voltados, em última análise, para a ordem objetiva da realidade. Pode então ocorrer uma recaída nas velhas tendências de alimentar a vaidade. E aí a estagnação nos estudos – ou, antes, na vida – virá, inevitável e terminal. E aí o culto do buraco afetivo terá vencido, justamente quando começava a ser derrotado.
Sim, infelizmente andam por aí inúmeros ex-estudantes que, mal tendo começado a entender as coisas, pegaram gosto, não pelo entender, mas pelo olhar vidrado e a boca embasbacada dos que cometem a temeridade de os escutar. E daí é só um passo para que os estudos virem outra coisa – em essência, bem diversa – mas ainda, na aparência, enganosamente similar; eles se tornam novas oferendas para o culto do umbigo que o rapaz se esforçava por abandonar.
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A vaidade é um monstro terrível, muito piorado por ser constantemente incensado. Ele é a Hidra de Lerna dos mitos. Tão logo se corta uma cabeça, nascem outras tantas, vindas do mesmo lugar do corte, que conseguem ser até mais monstruosas e insidiosas. Assim é a vaidade da alma carnal.
Se o estudante não se dá conta desde logo do tamanho do problema que é esse monstro que espreita no pântano do apetite afetivo, será facilmente tragado para as águas mofadas da estagnação, de onde nunca mais conseguirá sair. Que ele lute com a espada da reta consciência e saiba desferir o golpe fatal na cabeça principal do monstro; ciente de que ela que é, no entanto, imortal neste baixo mundo. Que a enterre bem fundo, se esquecendo, o quanto possível, de si mesmo. O importante está fora, ou, pelo menos, bem longe das preocupações do ego carente e loucamente envaidecido.
Apetites há mais nobres a que podemos dar nossa força e atenção. Quanto mais forte essa fome e sede for, melhor haveremos de ser, e nossa fome afetiva permanecerá dentro de confins e limites adequados. Lidar com o apetite afetivo é uma etapa muito importante da vida de estudos, que, se negligenciada ou ignorada, porá por baixo todos os melhores intentos e os melhores começos de carreira. Não são poucos os casos que se veem desta doença.
Nossa capacidade de sanarmos a fome da inteligência depende de como lidamos com a fome dos afetos. Eis um segredo esquecido que os antigos conheciam muito bem.

