Em tempos confusos, o que causa a confusão nunca é a mera supressão de algo vital ou essencial, mas a inversão de valores, onde o vital e essencial é colocado debaixo do circunstancial e acidental na escala hierárquica. É como a pessoa que adoece devido à má alimentação; ele não deixa de comer, mas, em vez de ter uma alimentação balanceada, devota-se quase que exclusivamente a comidas processadas e pouco nutritivas e acaba arruinando a saúde.
Os operadores de inversões, aqueles que as causam em grandes áreas da vida humana, em geral agem com consciência de que estão mudando a ordem estabelecida, e geralmente têm razões para tanto – más razões, mas razões. Estes causadores de confusão têm sempre certa vantagem que os torna ainda mais odiosos; eles nascem quando as coisas ainda estão, pelo menos razoavelmente, nos seus devidos lugares; carregam sempre, portanto, a memória e até alguns cacoetes de uma época mais saudável.
Quem mais sofre com a inversão de valores são aqueles que nascem quando a confusão já está plenamente aceita, instaurada e entronizada como a mais perfeita normalidade. Estes não veem dias sãos e sóbrios. Para eles, o normal é as coisas não fazerem sentido e tudo estar de pernas para o ar; é nada vingar e todos os seus planos serem pulverizados. Estes sofrem, fracassam e, para cúmulo de tudo, não sabem nem de quem era o tacape os atingiu pelas costas e os deixou atordoados.
Quando acontece uma inversão de valores na cultura e na educação, o resultado é que ninguém mais consegue avançar de modo são nos estudos. Todos começam cheios de esperança no saber e na cultura, e terminam numa confusão tão linda que faz gosto. O pior de tudo é que, estando tudo invertido, é o normal que parece errado e esquisito; e o estranho ostenta um ar familiar. É nesse mundo que vivem até mesmo muitos daqueles que creem ter encontrado o caminho de volta para a normalidade. Podem até ter encontrado; mas, enquanto não fizerem a jornada inteira, continuarão no mundo invertido; e, nesse sentido, ainda lhes convém muita cautela ao lidar com os bens culturais.
Vamos dar um exemplo disso em relação a um item básico da cultura: livros.
Numa época sã, todos, tanto os rudes como os eruditos, sabem que livros são um produto da cultura. Assim sendo, não são itens imediatamente acessíveis a todos, pois, o produto é sempre algo complexo, um agregado de diversos elementos. Para entender, basta-nos lembrar por quanto tempo fomos falantes de uma língua antes de nos tornarmos leitores dela, e lembrar que, na escala histórica, boa parte dos homens nunca leu um livro na vida. Atualmente, entretanto, os livros são vistos como o ponto de partida e de chegada da cultura, a tal ponto que os livros viraram sinônimo de cultura, e se crê de modo vago e geral que simplesmente não existe cultura sem livros. Esse é um erro de perspectiva típico de uma época em que a cultura foi posta de pernas para o ar.
A cultura não começa nos livros, sejam profanos, clássicos ou mesmo sagrados.
Mas, se os livros surgem mais tarde, e são bens circunstanciais, o que vem primeiro, sendo, portanto, o essencial?
É elementar: primeiro vêm os homens que sabem, os mestres.
Os mestres são as pessoas que demarcam a fronteira entre o saber e o não saber, entre a cultura e a falta dela. Pois é preciso que quem saiba ensine os que ainda não sabem; e alguém precisa possuir cultura para que ela chegue aos que não a possuem. Eis um raciocínio matemático em sua clareza.
E o segundo fato diafanamente claro é que… os livros nada sabem. Eles não têm cultura.
Isso pode soar chocante em um tempo que julga que quem sabe, mesmo, são os livros e os textos, especialmente os produzidos por um computador. Seja como for, nosso tempo acredita caninamente que a verdade está nos textos. Neste cenário, o que sobra aos homens? Ora, sobra-lhes serem apenas máquinas defeituosas, é claro!… Pois o mundo invertido não poderia deixar de ser o mundo da ironia. Nele, o texto produz a verdade. O computador cria o homem.
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Bem, ocorre que a verdade não está em texto algum. Está na alma de algum homem, se está em algum lugar. Um texto pode fazer alusão à verdade, contanto que esteja escrito em uma língua compreensível a pelo menos um homem vivo, e esse homem se dignar a lê-lo. Assim sendo, na ordem das coisas da cultura, o texto surge no fim de uma cadeia de elementos. Ele requer um leitor; e um leitor é uma tecnologia muito fina e trabalhosa. Pois, para se criar um novo leitor, muitos velhos e bons leitores precisam moldar, daqueles que não sabem ler, pessoas que leem.
Mais ainda, para que existam textos escritos, é preciso que existam pessoas que escrevam; e, antes disso, é preciso pessoas que criem, seja em verso ou em prosa. Os que escrevem e os que criam nem sempre são a mesma pessoa. Só para darmos os dois exemplos mais óbvios: Homero nunca escreveu a Ilíada e a Odisseia; “só” as criou. Sócrates também não escreveu nenhum diálogo socrático; “só” os inspirou ao seu discípulo Platão.
Ora, se um sujeito chamado Homero realmente existiu, seus poemas eram consideravelmente diferentes do que aqueles que hoje se leem, pois sabemos que foram modificados ao longo de séculos de transmissão oral antes de serem escritos pela primeira vez. Não obstante, sem Homero, a poesia e a cultura ocidentais seriam bem diferentes. Assim também em relação a Sócrates, que não deixou nenhuma linha escrita, mas marcou com sua própria vida (e morte) um antes e um depois na filosofia. É mais do que possível que Sócrates real não fosse tão platônico quanto o Sócrates de Platão; mas, fosse como fosse, há um antes e um depois dele, mesmo que jamais venhamos a saber quem era, de fato, o homem que propôs ao homem o conhecimento de si mesmo.
É fácil perceber, assim, que esses dois nomes que despontam em nossa cultura tinham pouco que ver com textos escritos. Na verdade, Sócrates lhes tinha horror; e é bem possível que Homero nutrisse um sentimento aparentado.
Não desejamos, por óbvio, inspirar desprezo a textos escritos; senão mostrar que a cultura não nasce, nem depende somente deles. Se notamos que, na atual fase da cultura, o texto escrito está no centro das atenções, ao ponto de se tornar uma entidade praticamente monopoliza as atenções, é aqui mesmo que devemos parar e relembrar que o mundo está de pernas para o ar.
Um notável sinal disso é que nunca se leu tanto na história humana ao mesmo tempo em que pouquíssimos leitores julgam ter necessidade de refinar suas habilidades de leitura. E esse desprezo é muito esquisito; ele tem que ver com a qualidade do que se lê, mas também com o já mencionado engano a respeito do próprio ato de ler.
Tal desprezo pela técnica de leitura é mais espantoso naqueles que professam amor aos clássicos. É que, de novo, tudo anda de ponta-cabeça. Para que as coisas comecem a voltar ao lugar, teremos de entender algo crucial às nossas ponderações. O fim da educação clássica nunca foi criar uma ponte entre um leitor e um texto; mas aproximar um aluno de um mestre. Deste contato deve nascer o amor às letras; mas nunca fora dele nem à sua revelia ele nascerá. Porque, sem tal contato, todo estudo se reduz a um recreio mais ou menos fútil e banal, em busca do qual o leitor nem sequer vê motivos para aprender a arte de ler.
Este aparente imbróglio, este beco sem saída pode ser resolvido se dermos um passo atrás e olharmos as coisas de modo mais amplo – e realista. Prestemos atenção a este fato. Não se tem notícia do tamanho da biblioteca de Homero e Sócrates; o mesmo ignora-se em relação a Moisés e Cristo. O mais provável é que nenhum deles tenha possuído uma. Ainda assim, multidões acorriam a eles para ouvir de suas bocas o manancial da sabedoria viva. Entendamos de uma vez: essa sabedoria, viva na alma de um homem vivo, é o que importa. É ela que vem primeiro; é ela que, depois, transformada em livros, torna estes merecedores de nossa atenção. Sem a sabedoria de um homem vivo, nenhum livro poderia nem sequer ser escrito.
Não é que Cristo e Sócrates desprezassem os livros, ou não soubessem ler. Eles sabiam! Mas os livros, para eles, ainda eram só um bem entre outros, não um fetiche; eram meios para um fim, não uma obsessão. Eles estavam em busca da sabedoria, não eram, como nós, bibliófilos. E a sabedoria, neles, era tão viva que livros sem fim tentam dar conta dela e ainda assim não a esgotam. Porque não é para isso que os livros existem.
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Ler é uma operação bem mais difícil do que parece. Um erudito que se preze passa a vida em busca do domínio dessa arte. Porque a arte de ler é parte da arte de aprender; e nenhuma arte é tão elusiva quanto a arte de aprender.
O estudioso, ao subir um patamar de entendimento, costuma notar que não entendia, até então, o tanto que imaginava. Ele relê algo que já havia lido, e descobre que ainda não havia entendido em toda a sua profundidade ou altura. É como naqueles filmes em que o personagem vive incessantemente o mesmo dia, mas não do mesmo jeito, pois sempre aprende algo novo sobre si, mesmo entendendo pouco sobre a situação em que está metido. Assim somos nós em relação ao conhecimento.
Ensinar alguém a aprender, nestes parâmetros, é impossível. Um mestre não faz isso diretamente; sua função é esclarecer quão duro é o aprendizado para um coração empedernido. Por ter essa experiência, ele pode guiar o aluno. Tem ele muito a dizer sobre a autoilusão de sabedoria; sobre as várias etapas do aprender e do saber: e tem, é claro, alguns truques a ensinar. Tudo isso, quando coletivamente tomado, é o que se denomina educação.
Esta é a educação possível e, ademais, desejável: que o aluno entre em contato com um homem forjado na arte de aprender, conhecedor de suas dificuldades, provas e descaminhos. O mestre não pode ser, pois, um mero teórico da educação recém-saído dos bancos universitários, cheio de ardores juvenis e ideiazinhas tomadas de empréstimo a outros autores.
Só sabe guiar pelo caminho do aprendizado aquele que já trilhou esse caminho até um ponto alto e seguro, de onde pode olhar para trás e ver e meditar sobre as etapas e dificuldades transpostas. Um livro, é claro, não pode fazer nada disso; razão pela qual estamos muito malucos se pensamos que, com a alfabetização que hoje se dá na maioria das escolas, mais alguns livros – clássicos o quanto se queira – nos vamos cultivar, podendo dispensar a parte essencial da educação: os verdadeiros professores, isto é, os mestres.
Para se ler com proveito e sucesso – empreitada mais árdua do que se imagina – os grandes livros, o aluno há de passar pelo longo processo de aprender a ler e, mais amplamente, aprender a aprender. Mas, para isso, é preciso que quem não sabe essas coisas se ligue com quem já tenha experiência delas. É a relação mestre e aluno. Ninguém pode alterar essa ordem, que é natural e até matemática. Pois só quem tem mais pode dar a quem tem menos. E, sem a restaurarmos, não vamos desvirar a cultura que hoje anda por aí, como se fosse a coisa mais natural do mundo, se apoiando nos braços, como o doidinho da história.

