Certo. Você decidiu que não vai estudar. Entende-se. É caro, é custoso, é árduo e – pior de tudo – custa, arde e não rende nada de tangível.
Um pergunta, porém, inevitavelmente surge após a decisão: se eu seguir assim pelo resto da vida, o que vai acontecer?
Adiantamos que, no primeiro momento, nada. Afinal, não estudar você já não estuda; ou se estuda, estuda mal. E está por aí, no mundão, fazendo coisas, curtindo, trabalhando, jogando conversa e dinheiro fora, assistindo a séries e filmes, espalhando fakenews a torto e a direito. Na aparência e para todos os fins, você é mais um, uma pessoa normal, como os outros que não estudam e não aproveitam de modo excelente a faculdade intelectual de que foram dotados.
Há entretanto um problema, que logo de cara já se insinua e que, neste próprio texto, já se insinuou.
Você nunca saberá o que acontece a longo prazo.
Natural. Pois, francamente, você esnobou a parte de si que ama o conhecimento. Como conheceria as consequências de longo prazo do desprezo aos estudos, dado que escolheu resolutamente não saber? Não faz sentido.
Tendo optado por não saber, resta viver com consequências desconhecidas.
*
Seja como for, eis uma resposta, tirada a um livro bem antigo, por nome, Florida, do escritor latino Apuleio, a título de precaução.
Assim diz:
“O homem que é estéril para a virtude é como aqueles pobres infelizes que cultivam os campos pedregosos de uma herança infértil, só rochas e espinhos. Não podendo tirar colheita dessas devastações e não encontrando fruto em um solo onde
‘Apenas grassa a aveia brava e o joio rançoso’,
Cientes da própria pobreza, saem a afanar os frutos alheios e a saquear seus jardins, e misturam as flores do próximo aos cardos que trazem em si.”
Ora, mas quem é estéril para a virtude? Não ousaremos dizer que alguma alma criada por Deus seja de nascença incapaz de cultivar as virtudes; não seremos nós a afirmar isso! Não, a alma estéril se fez estéril por suas ações e omissões. Não se duvide, pois, que a alma se esteriliza quando, diante da oportunidade, recusa os estudos, deixando entregue às pragas do campo o intelecto que recebeu para cultivar.
O intelecto que está atulhado de pragas e pedras, que não dá bons frutos, não está assim porque somos desafortunados, como os herdeiros miseráveis de Apuleio; mas porque, encontrando assim a herança, resolvemos não trabalhar nela. Somos os culpados e mais ninguém; pois há tempo, há dinheiro, há meios, há professores, há cursos: falta vontade e resolução.
E tal falta já acusa a incultura, tanto da vontade quanto do intelecto.
*
Mas o que vem depois?
Depois vêm os dias, os meses e os anos envelhecendo na opção pela ignorância, nos quais se acumulam em nós, como a cinza, o pó e o mofo em um depósito abandonado, as perguntas sem resposta, as dúvidas que vão entrevando a alma, as meias-respostas que dão engulho, os sentimentos, já doidos, enjaulados, os pensamentos como caniços quebrados e pavios que só fumegam no ar.
E tudo o que vem a reboque disso, como a confusão, a ansiedade, a depressão, o niilismo.
Que não são, ainda, o fim. Pois eis que então vem a época da rapina.
É quando tentamos tomar o fruto alheio, ou morreremos de fome. Mas o fruto roubado nunca será realmente nosso.
O fruto roubado são as respostas que os outros, a duras penas e muito trabalho, colheram. Ocorre que, sem as penas e os trabalhos, as respostas não são respostas, não funcionam como deveriam. Elas não respondem. Se lá no início tivéssemos feito o propósito de estudar, as respostas alheias nos ajudariam a encontrar as nossas; mas como as adotamos no fim do caminho, de modo protocolar, isso na verdade piora a nossa situação, como um adorno que não adorna, porque foi posto para enfeitar algo tão feio e repugnante, que já não comporta ser enfeitado.
Eis que, então, tentando na undécima hora melhorar, tornamo-nos ridículos. Mas será que não há jeito de aqueles que escolheram mal mudar de vida, ainda que tardiamente? Há, sim, mas terão de mudar de escolha arrependendo-se, e não meramente estampar, ex abrupto, na camiseta as respostas alheias às perguntas difíceis. E, quanto mais tarde, mais duro será o arrependimento.
Sim, é verdade que as respostas todas, ou quase todas, já foram encontradas; mas apenas isso nos é de pouca valia. Pois continuamos tendo de encontrá-las em nós, não somente nos livros e nos reels. O segredo está aí. O mesmo vale para as virtudes. Não é difícil conhecê-las superficialmente em páginas cheias de palavras que refletem o intelecto e a busca de Aristóteles e Santo Agostinho; difícil é encontrá-las cá dentro, em nossa alma. Pois, aí, elas estão sufocadas por pedras, pragas e pássaros que lhes comem as sementes dia sim, outro também. É aquela herança miserável…
… a qual temos o dever de trabalhar, contra todas as dificuldades, dores e imperfeições. Não existe outro jeito. Pior coisa é se esconder atrás de escusas como a burrice, os deveres sociais e familiares e a pobreza de nascença. Quanto mais estudamos, mais conhecemos exemplos de pessoas que estiveram metidos em encrencas muito piores que as nossas e triunfaram. Melhor é nos calarmos, diante disso, e, pelo menos, não reclamarmos. Pois, no fim, de novo, essas desculpas só existem por causa de nossa ignorância.
*
Se você decide não estudar, você pode até ser considerado um cara legal, ganhar bastante dinheiro, ser famoso e até loucamente famoso (embora isso seja raríssimo): mas uma coisa é garantida, é líquida e certa: você não terá respostas às perguntas que calam fundo na alma humana. E essas perguntas serão, para você, eternamente, um vazio insondável, um vácuo tendente ao infinito. Sim, eternamente.
E esse é o motivo por que vemos tantas pessoas ricas, famosas e paparicadas caindo de abismo em abismo, quando estão fora do ambiente cuidadosamente curatelado das telas. O abismo é interior e invisível, mas muito real.
Em todo caso, o mais provável é que você acabe sendo mais um ferrado na vida com um vazio infinito dentro de si para alimentar. E sabe-se lá o que é pior nestes casos.
*
No fim e ao cabo, este texto está assentado sobre uma grande contradição. Pois começamos dizendo que não era possível, ao que escolhe não estudar, conhecer o que o aguarda no futuro, e acabamos tentando expressar justamente isso. Entretanto, dissemos e não dissemos. Aos que nos leem e se sentem tentados a uma má escolha, ler isto lhes vai dar uma ideia fantasmagórica, uma noção pálida, mas não lhes revelará, com a tridimensionalidade do real, o que realmente o espera. Tente imaginar, como em pesadelo, a vida que se vive com a escolha pela ignorância, pelo obscurecimento consciente. Pois é disso que se trata. E se ainda tiver dúvidas, olhe para os lados.
Muitos não estudam porque jamais foram informados dos estudos sérios; só dos de brincadeirinha. Outros porque não têm as capacidades requeridas. Nada de errado aí. Eles nunca escolheram não estudar; nunca renegaram nada, pois nunca foram chamados. É só aqueles a quem a vida levou diante dos estudos sérios que têm culpa. Pois viram o trabalho, pressentiram o prêmio, mas voltaram as costas com frieza, por desejo do meramente passageiro.
Triste.
Mas, vimos dizendo, existe um preço a se pagar até pela omissão, pela indiferença, pelo desamor. Desamor pelas letras, pelos clássicos, pelas obras de arte, pela filosofia? Não, não se trata disso. É desamor pela obra máxima da Criação, quase podemos dizer. O intelecto, a força que mais claramente caracteriza o homem. As letras, os clássicos, as obras de arte, a filosofia apenas foram feitas e aí estão para guiar este intelecto em sua busca pela verdade, para auxiliá-lo. Ancillae é o que são. E, para alguns, ajudantes necessários, bastão de apoio, luzinha na noite: lucula noctis. Mas quão valiosa é uma luzinha quando ao redor tudo é breu! Quando, antes do raiar do astro que guia direito por toda via, está mais escuro…
Não, não voltaremos as costas ao astro se formos guiados no escuro pela sabedoria de Virgílio, enquanto rezamos pela aurora vindoura. Esquecemos disso?
Então que antes nos lembremos que abandonemos os estudos, os salutares estudos, os estudos devidamente ordenados ao fim mais nobre, a verdade que liberta.

