Pensar: você pensa? Sim, todos pensamos. Mas se nos perguntam o que é pensar… ai, que dor e quanta confusão!
Pensar. Palavrinha pequena, curta, que anda sempre em nossos lábios: dizemos, para lá e para cá, “pensei isso”, “pensava aquilo”, e seus correlatos, “acho que isso”, “supunha que aquilo”.
Porém, de novo: o que é pensar?
É duro dizer. Mas tentemos.
Bem, a verdade é que, infelizmente, pensamos que pensar é algo muito simples. Por exemplo, muitos pensam que pensar é pensar palavras. Esses nadam à superfície de um oceano abissal; um oceano que bem os poderia engolir, mas que, em geral, não engole, porque são superficiais demais para isso.
Esses acima descritos também acham que ler é ler palavras numa superfície. Enquanto estão “lendo” palavras já vistas, sentem-se seguras. Quando surge uma palavra desconhecida, porém, travam, e algumas até entram em pânico. Mas isso não é ler, menos ainda é pensar.
Pois pensar não é só deslizar sobre certa superfície, seja ela sonora, seja escrita. Ao menos, os autores clássicos, aqueles antigos, não pensavam assim. Pensar também não é meramente raciocinar. Se entendo que todo A está em B, e que C está em B, então concluindo que C está em A, não pensei ainda. Raciocinei, mas não pensei.
Os antigos usavam um verbo curioso em relação ao pensamento. Entrar. Eles diziam que alguém entrou a pensar. Ora, você entra em algum lugar; logo, o pensamento é um “lugar”.
Se você entra, não pode ficar à superfície, nem somente ficar olhando, embasbacado, a fachada de um prédio. Você entra, vai para dentro.
Quando lê um livro de Platão, por exemplo, você não pode apensar deslizar pelas palavras, como um skatista desliza sobre pavimento e corrimões. Quando lê na República: “Desci ontem ao Pireu com Glaucon, filho de Ariston, para orar à deusa”, você tem que entender que foi convidado a entrar num pensamento. Foi convidado à descer com Sócrates ao Pireu.
Se não desceu, você não foi a lugar nenhum. Não pensou, portanto. Veja que, se Platão quisesse, poderia ter omitido completamente o preâmbulo das discussões que ocorrem na República. Mas ele não queria que você apenas lesse discussões abstratas, queria que fosse a certo lugar com ele.
Ora, não é à toa que os antigos retóricos e dialéticos falavam de lugares-comuns. Hoje, chamamos lugares-comuns aos clichês. Mas eles não eram isso. Lugares-comuns eram, justamente, os lugares para onde o pensamento poderia fluir desimpedido, sem se perder no labirinto ou na pura loucura mental. A arte de pensar e de ler é, portanto, a arte de ir, por meio de lugares-comuns, a lugares muito específicos.
Os topoi (como são chamados os lugares-comuns em grego) são canais do pensamento. Porque o pensamento é esse movimento por um lugar chamado mente. Quando lê, você vaga pela mente dos outros. Quando se põe a pensar solitário, você ensaia caminhar com os próprios pés. Isso pode ser perigoso. Consideravelmente perigoso, aliás, caso não saiba o que está fazendo. No meio desse labirinto que é a sua mente está o Minotauro da fábula grega. Tenha algum cuidado. Por isso, antes de se meter a pensar “com os próprios miolos”, trate de andar com o fio de Ariadne em mãos – que significa o processo educativo – para não se perder. Isso significa que você precisará andar pela mente dos grandes autores muitas vezes até aprender o riscado.
Quando lemos sobre aqueles heróis gregos como Hércules e Teseu, eles podem parecer uns brucutus que resolvem tudo na base da pancada ou da ardilosidade. Mas é por essa mesma razão que eles foram vistos, pelos filósofos, como alegorias da vida do espírito. Hércules teve de se exercitar e amadurecer muito antes de filosofar; teve de fazer 12 trabalhos impossíveis. Teseu limpou a área que vai do Peloponeso à Atenas de bandidos e feras, depois resolveu o problema com Creta, antes de se tornar um rei-filósofo.
Tudo isso se refere à fase de aprendizado que todos temos de ter antes de cumprirmos as grandes tarefas que a vida nos propõe. Quanto maior a tarefa, maior será o tempo de treinamento. Platão projetava que o treinamento de um filósofo iria até, mais ou menos, os seus cinquenta anos – coisa hoje em dia impensável.
Bem, talvez você não queria ir aos cimos da filosofia que Platão tinha em mente. E é justo, está tudo certo. Mas você pode querer aprender a ler e a pensar e a falar direito. Isso também é justo, e talvez seja mais do que isso, talvez seja uma condição para você se formar como homem. Você está portanto querendo educar-se. Bem, não vai demorar tanto tempo quanto para se formar filósofo, mas vai demorar um tempo, pois, para começar, você terá de reformar o seu modo de pensar, como aqui indicamos.
Agora, porém, você já sabe disso. É bem possível que esteja travado, tentando avançar nos estudos por meio do pensamento superficial há muito tempo, patinando em looping sem saber o porquê. Para sair desse beco aparentemente sem saída, você tem de dar um salto para trás dessa zona escorregadia, que parece pensamento, mas não é, e reformar sua mente. Assim, quando começar a caminhar com confiança pelos verdadeiros átrios do pensamento, se alegrará e bendirá a hora em que mudou de rota.

