Todos os mestres do pensamento tinham uma poderosa capacidade de se concentrar; coisa fácil de se deduzir, já que, sem isso, certas atividades do espírito, como orar e estudar, são meras ilusões.
A alma dispersa – e, poder-se-ia dizer, do nosso tempo – é como o vaso quebrado de que fala o salmo e o profeta Jeremias, com a diferença de que não se busca mais recompor o vaso em Deus pela disciplina. E uma alma partida, em pedaços, nada retém.
A concentração vem da sinergia entre o pensamento e a vontade; pois a vontade é a potência que reúne o disperso, aquilo que era apenas potencial na alma, em um ato que rechaça o supérfluo, o residual, o inútil.
Pensamos e sentimos muitas coisas ao longo de um dia; boa parte delas, viciosa ou fútil. Pomos em ação uma mínima parte do que cogitamos – justamente quando conseguimos emergir da dispersão dos pensamentos, desejos e temores.
Bem, o problema está aí. Temos de emergir dessas águas turbulentas, cheias de monstros, em que a alma está submersa, para a esfera da ação; e, não só isso, para a esfera da ação luminosa e ordenada. É isso que grandes mestres do pensamento fazem. Como – eis a questão de que vamos tratar.
Primeiro, é preciso saber o que se quer da vida. Pode-se dizer que, se você veio a este site, é alguém que caminha na via de estudos, e que, portanto, procura melhorar sua situação existencial por meio deles. Ótimo! Procure ter isso sempre em mente. A segunda medida é banir da vida aquilo produz e mantém a dispersão.
Daí temos de entender o seguinte. O inimigo são os próprios pensamentos desatentos.
Pensemos assim. A inteligência, o espírito universal, é capaz de penetrar e compreender todo o universo criado. Nós, porém, enquanto indivíduos, não somos. A nossa inteligência também poderia, em teoria, entender tudo que existe; o problema é justamente que ela está em indivíduos pejados de limitações: a principal delas, estarmos num corpo confinado a um aqui e agora, coisa que limita a ação da inteligência. Por consequência, nós somos um problema para ela. Eis o motivo de termos que gerir a inteligência por meio da atenção, a fim de que o intelecto não se torne o próprio epicentro da dispersão da alma. Explicaremos.
A disciplina dos estudos é esta: gerir a inteligência para que ela não escape ao nosso controle, dispersando-se em assuntos que ainda não é capaz de alcançar. Devemos refletir sobre isso sempre.
E aí entra a vontade, que põe rédeas à inteligência para que seja empregada de modo – inteligente. Sim, a inteligência pode ser usada de modo burro, e o nome disso é dispersão.
Bem, se você concordou com o que foi dito, então concordou com mais uma coisa: a inteligência é algo vivo em nós, a qual opera mesmo que não estejamos “no controle” dela. E é justamente por isso que ela deve ser, em certo sentido, domada.
Na prática, isso quer dizer o seguinte. A curiosidade vã é a grande inimiga da inteligência. A curiosidade é esse operar selvagem e xucro dela. A curiosidade, no sentido aqui tomado, é a curiositas dos medievais, um movimento desregrado da alma que não mede suas possibilidades em cada momento, e opera como se a inteligência humana fosse angélica, livre das restrições do corpo e da alma inferior.
Mas a ação apropriada, em cada esfera, e assim também na intelectual, é ordenada, não aleatória. A boa inteligência se apoia naquilo que já foi percebido e inteligido, que lhe serve de suporte. Sem suporte, ela balança e cai no amorfo e na fantasmagoria, na conjetura grosseira e infundada.
Bem, tudo isso para dizermos que, sem concentração, não é possível o estudo nem a ação ordenados. Pois a concentração é a reunião das forças da alma em torno de um eixo que lhe dê sentido. A curiositas é, assim, a dispersão das forças racionais para os mais variados locais do cosmo e da alma.
O disperso pode aparecer como aquele sujeito que passa o dia a “surfar conteúdos” na internet. Mas essa é só sua manifestação mais atual e hipertecnológica. Antes de chegar a ser um homem triturado pelo algoritmo, já era disperso, visto que não recebeu a disciplina da concentração.
Bem, voltemo-nos agora para a concentração e sua faculdade, a vontade. O filósofo romano Sêneca conta que morou por um tempo no lugar mais agitado de Roma: em cima dos banhos públicos. Ao seu quarto chegava todo tipo de alvoroço, os gritos, os estampidos, o burburinho que reinava abaixo. Mas ele escolhera o local de propósito, para testar suas capacidades de concentração enquanto se alojava, quase que literalmente, em cima do Caos. Sêneca já havia feito a opção pela sabedoria; ele conhecia bem o que almejava, e confiava na capacidade da vontade de concentrar as forças da inteligência onde quer que fosse. Assim, ele se treinou para a concentração perfeita.
E aí é que está. Se nos concentramos no interior, na alma, tapando os olhos e os ouvidos para a agitação exterior, vamos nos robustecendo interiormente e nos tornando mais fortes para as atividades intelectuais, que já fazemos com muito mais energia! Lemos com atenção, pensamos com clareza, formamos ideias com criatividade e fôlego.
Sêneca afirmava que a alma que se perturba por qualquer coisa exterior que lhe chame a atenção é indiscreta e ainda incapaz de estudiosidade.
A alma dispersa não é capaz de acompanhar o raciocínio complexo de uma exposição ou uma linha narrativa; menos ainda de chegar ao fim de uma disciplina. Condena-se assim a ser um eterno iniciante em tudo que faz, jamais desbravando as regiões mais distantes do conhecimento e das artes.
Esse estudante começou a gramática; mas já, já estará lendo filosofia hermética, coisa muito fácil de se fazer hoje. Acabará, é claro, por perder o interesse na gramática, sem fazer progressos no hermetismo. Não admira! Ele precisaria pisar em terreno seguro para avançar, mas como vive mudando de ambiente mental, cai, como dissemos, em certos pântanos da mente, e passa a se afundar em assuntos árduos, quando não temerários.
Sair desses lugares de formas vagas e fogos-fátuos é um trabalho que o próprio Héracles temeria fazer. Melhor, muito melhor é não se ver, de repente e inerme, em regiões sombrias…
“Forço a mente a estar presente a si mesma”, relata Sêneca, “e a evitar as coisas exteriores”. Isso para a nossa moderna cosmovisão é mais ou menos como uma condenação à tortura, pois, para ela, viver é ouvir os ruídos exteriores; isto é, qualquer ruído que nos dispense da presença ao interior. O interior para nós é a tortura e, por fim, a morte. E seria mesmo: seria a morte da mundanidade, coisa de que fugimos como o diabo da Cruz.
“É leviana e não se recolheu a si mesma a mente que se levanta a qualquer voz ou acidente; tem algo de ansiosa e é presa de um temor arraigado que a torna curiosa”, insiste nosso autor.
A mente que se lança sobre qualquer oportunidade de se voltar para fora, enfim, ainda não está apta à concentração que os estudos requerem, pois não desenvolveu a disciplina da presença interior.
Mas, alguém perguntará: não é melhor apenas fugirmos dos ambientes barulhentos e dispersantes e nos refugiarmos em algum lugar tranquilo? Depende. Pois, se for apenas uma fuga, o ruído nos seguirá até o refúgio, por idílico que seja, como o monstro de um filme de terror.
O velho Sêneca por fim se mudou do apartamento sobre os banhos públicos. Mas o experimento foi válido. E quanto a nós, que nem nos forçamos a estar presentes ao interior nem sequer fugimos às ocasiões de dispersão? Estamos numa situação ainda muito periclitante em relação à vida do espírito, especialmente agora que temos toda a dispersão do mundo na palma das mãos.

