Um dos maiores medos de quem começa os estudos é enlouquecer. Estudar requer pensamento solitário, e este abre as portas para um mundo muito diferente daquele em que de ordinário vivemos: o nosso mundo interior. E, bem, a verdade é que fugimos deste mundo todo nosso como o diabo da cruz.
Ora, isto indica algo extraordinário, que muitos pensadores e artistas já observaram ao longo da história: que o homem é o animal mais estranho a si mesmo. O homem se estranha, e teme as profundezas de sua alma, e assim foge e se refugia na superficialidade das coisas, ou apenas na sua familiaridade mais reconfortante. Depois, porém, reclama que a vida é monótona e previsível…
Bem, quem tem um espírito assim, medroso e acuado, e não está disposto a mudar, de fato não tem os requisitos mínimos para iniciar os estudos. Oxalá não seja o seu caso!
Pois quem encara esse desafio tem de encarar os famosos fantasmas e demônios interiores, antes de começar a pensar com mais desenvoltura. É aqui que muitos param, após um arroubo inicial de entusiasmo pela vida de estudos, e voltam atrás. Mas, está dito: quem põe a mão no arado olha para trás não é apto para o Reino dos Céus. Isso significa que, se você começou o cultivo de si e depois hesitou com medo, as coisas não vão acabar bem. Se começou, termine.
É por isso também que os gregos resumiram anos de sabedoria acumulada na máxima: conhece-te a ti mesmo. Pois ninguém é capaz de pensar sobre as coisas objetivas nem sobre as coisas celestes sem antes conhecer o que carrega consigo aonde quer que vá.
E o processo aqui descrito é mais ou menos assim: você começa a pensar sobre qualquer assunto – pode ser poesia ou hidrostática – e logo percebe que não vai ser fácil vencer a sua ignorância; que pensar é mais ou menos como quebrar pedras: dói e cansa!
Bem, é aí, quando você começa a se cansar e a ficar dolorido, que os fantasmas do passado e os demônios sempre presentes começam a lhe assaltar com dúvidas, traumas, imagens apetitosas e mais toda a parafernália de que dispõem.
E você conclui que aquilo não é para você, pois os outros – você pensa – não têm esses problemas. Ou, se têm, têm em muito menor escala.
Ledíssimo engano, é claro. Muitos artistas e pensadores pagaram com uma vida de tribulações, e às vezes com a própria vida mesmo, a sua obra. E é assim que as coisas são. Não nos podemos iludir.
Mas, vale a pena? Vale, especialmente porque você não está sozinho com sua mente. Ela não é um alçapão que leva ao fundo de uma caverna sem saída. Na verdade, você está nela, goste ou não. É só a condição humana
E a boa notícia é que você não precisa ser como muitos pensadores que, sem ajuda, se imbricaram nas florestas do pensamento e acabaram se dando mal. Pois você não está só em sua mente. Você conta com os grandes pensadores do passado (como Dante contou com Virgílio) e deve contar com o apoio de outros estudantes que virão a ser seus amigos na jornada pelo mundo do espírito. É assim que deve ser.
E você conta, ainda por cima – se puder acreditar – com os anjos, puro intelecto, que vivem nessas regiões excelsas e guiam os de boa vontade. Como você acha que os maiores intelectos aguentavam viver nas alturas da metafísica e da teologia? É porque contavam com bons amigos também lá.
Bem, se acompanhou até aqui, deve ter visto que há bons motivos para continuar a jornada começada, se tentou abandoná-la; e, se ainda não a começou, deve ter visto que há excelentes motivos para fazê-lo. Conte conosco.

