Todo mundo deseja naturalmente o conhecimento. Assim começa, otimista, a obra mais importante de Aristóteles, a Metafísica. Mas se o conhecimento é o desejo dos povos, como assim que ele pareça meio escanteado, meio menosprezado quando olhamos ao redor? Com certeza é uma minoria ínfima que sai da escola dizendo: “daqui saio com o firme e ardoroso propósito de fazer de minha vida uma dedicada e incansável busca pelo saber!”
Aliás, alguém já disse isso, ou algo por essa linha, ao sair do colégio?
Será que o sábio de Estagira se enganou, ou será que a situação mudou muito? Será que era assim na Grécia Antiga, mas, simplesmente, já não é mais? Qual o problema?
A verdade é que não era bem como imaginamos, nem na Grécia Antiga, nem agora.
A verdade é que desejamos o conhecimento, mas já não sabemos expressar nem o que fazer com isso; o que é uma infelicidade em uma época na qual se tem acesso tão facilitado a ele.
Observemos bem o que diz Aristóteles. Ele diz que a prova de que desejamos saber é nosso apreço pelos sentidos. Pelos cinco sentidos corpóreos, ele quer dizer.
Então é aí que a coisa começa. Imagine que você esteja fazendo um tour por uma vinícola famosa e chique. Você prova vários daqueles vinhos que não compramos por serem muito caros, mas que, ao saboreá-los, entendemos por que são tão caros.
Na sequência, você é guiado pelo processo de fabricação do vinho e aprende, em linhas gerais, como das bagas de uva finamente cultivadas, passando pelo processo de esmagamento, fermentação e envelhecimento, vem a existir aquela bebida tão agradável ao paladar.
Não é verdade que, após provar o vinho, o processo de feitura dele lhe desperta o interesse e aguça a curiosidade? Pois bem, foi o próprio fato de que você experimentou o vinho de qualidade que fez isso.
O vinho bem feito é que fez tudo isso, gerando em você um impulso de saber – especificamente, no caso, de saber o como do vinho. Como ele vem a existir? Essa é uma pergunta perfeitamente legítima, que diz respeito ao tipo de conhecimento chamado arte, o conhecimento produtivo.
Então, o sábio grego tinha razão. Os cinco sentidos são a porta de entrada do conhecimento, e, mais, um convite ao conhecimento. A experiência sensitiva das coisas é tudo isso; de modo que uma pessoa que não tenha tido muitas experiências na vida pode ter esse impulso para o saber um tanto atrofiado.
Mas o sábio grego tinha ainda mais razão do que já supomos. Pois se os cinco sentidos abrem as portas do saber, a motivação para buscar o saber vem de um sentimento; de um sentimento anexo a certas experiências. É, segundo Aristóteles, o sentimento de espanto, em grego, thambos.
Desse modo, se nunca tivemos uma experiência que nos causou espanto profundo, ou se por qualquer motivo soterramos esse sentimento sob mil outras experiências frívolas e superficiais, então nunca será despertado o genuíno e constante desejo de conhecer, aquele que nos leva a sacrificar nossas frivolidades por um valor mais alto. O exemplo do vinho de qualidade é apenas um exemplo simplório, que de maneira geral não gerará o impacto tão profundo na alma.
Mas o desconcerto do mundo, a profundidade da alma humana, a variedade da natureza, a vida em sociedade, a beleza da literatura, a exatidão matemática, o poder do intelecto, a estrutura do ser, as alturas dos mistérios da religião; todas essas coisas, tão logo experimentadas, e sua grandeza sentida na forma do espanto, iniciando nos cinco sentidos mas avançando e penetrando por meio da razão – terão o condão de despertar em nós a inteligência e pôr em movimento a virtude da studiositas.
A estudiosidade não é nada além do desejo forte e ordenado de conhecer o suficiente para vencer todas as dificuldades que se possam lançar no caminho entre o homem e o seu fim, o saber. Tão logo essa virtude tenha começado a operar em nós, nada mais nos pára, se não os obstáculos invencíveis da realidade. Somos como o amante que vence todos os obstáculos pela amada; como Odisseu que contorna astutamente os maiores perigosos, sempre com o olho da alma posto no retorno ao lar.
Perfeito. Tudo isso parece cogente. A questão que fica é a seguinte: precisamos estar atentos os nossos sentidos; precisamos ter experiência das coisas da vida; mas precisamos, acima de tudo, que essas experiências sejam do feitio a nos causar espanto. E aí voltamos ao vinho. O vinho que geralmente nos causa o desejo de conhecer é aquele produzido com arte. Seu sabor parece tão sutilmente calculado, que nossa curiosidade se aviva para entender não só como se produz vinho, mas como se produz o bom vinho. É o bem – no caso, o bem do vinho – que realmente nos aguça a curiosidade. Por que este é diferente, por que este tem um sabor que alcunhamos, com mais acerto do que talvez pensemos, como fino? Porque esse bem é, realmente, fino, no sentido de que não é grosseiro, não é feito de qualquer jeito; e não é qualquer aventureiro em matéria de vinho que é capaz de o produzir. Isso é arte, isso é saber genuíno, isso é excelência.
Analogamente, quando lemos uma obra-prima da literatura ou da retórica, ou um arrazoado lógico tão fino e bem urdido, isso nos desperta do torpor das formas grosseiras de dizer as coisas. Quando somos capazes de acompanhar uma demonstração matemática longa e laboriosa, em geral, dizemos: isso é até… elegante! Assim, também, a elegância, o intrincado, a pujança das obras da criação, quando bem contempladas nos causam o espanto. Thambos!
É a excelência que nos causa esse espanto. Assim, os heróis homéricos eram desesperados por fazer as maiores façanhas ao ver as façanhas alheias; essa inveja não era mera inveja, era emulação, desejo de imitar e superar.
Sem esse sentimento, nossa inteligência permanece num estado de torpor e sonolência. Ela até está ali, funcionando, mas não realmente. De tal modo que, se estamos rodeados – e, ainda pior – se nos rodeamos com o feio, o fraco, o perverso, o baixo, nunca desenvolveremos o genuíno desejo de conhecer.

